Antes da distância em quilômetros (The Other Side)



Eu tentei ver pelas suas lentes.

Aceitei seus julgamentos,
vesti a culpa como se fosse minha.

Pedi desculpas
por uma história
que eu ainda nem entendia.

Porque eu te queria.
E naquele momento
o medo de te perder
falava mais alto
do que a minha própria voz.

E foi assim que ficou para mim:

como uma atitude minha
pôde destruir tudo?

quão horrível eu devo ter sido
para você ir embora assim?

Mas agora
deixa eu te contar
o outro lado da história.

Eu não estava te esperando
quando te conheci.

Nem estava te procurando
quando te encontrei.

Você não foi idealização 
eu nem tinha expectativas
quando tudo começou.

Elas nasceram depois.

Foram cultivadas
pelos seus gestos,
pelas suas palavras,
pelas promessas.

Você sabe
e eu sei
tudo o que dissemos uma à outra.

Eu fui clara com você.
Te disse que voltar
tinha ganhado outro significado
depois que te conheci.

Você me cativou.

E existe aquela frase
que você também conhecia:

“Tu te tornas eternamente responsável
por aquilo que cativas.”

Quando você desapareceu
eu fiquei sozinha
com perguntas.

Não com respostas.

E eu nunca entendi

como alguém que dizia amar
achou justo
simplesmente desaparecer.

Nem o por quê
você soube me dizer.

E pedir explicação
pelo mínimo
é uma forma silenciosa
onde o desgaste grita.

Realmente, o que mais isso

poderia nos trazer de bom?

Hoje eu entendo
que não foi por aquele dia.

Se fosse,
quão frágil teria sido
o seu sentimento?

A verdade parece outra.

Você já tinha ido embora
antes mesmo
da distância em quilômetros entre nós.

E eu fiquei aqui
acreditando
que ainda estávamos em sintonia 
como você mesma dizia.

Eu te pedi tanto
para não me iludir.

E você respondia:

você não vê
o jeito que eu olho para ti
?”

Se você dizia
que eu estava errada,
como eu poderia duvidar?

Aos poucos
você me fez confiar mais
em você
do que em mim.

Hoje eu sei
que isso tem outro nome.

Mas naquela época
eu só sabia sentir.

Foram necessárias
algumas sessões de terapia
para que eu finalmente entendesse:

você nunca teve
responsabilidade afetiva.

E eu estava tão preocupada
em não te ferir
que não percebia
o quanto já estava ferida.

Você dizia
que o que vivemos
foi surreal.

Então por que
eu me senti
tão descartável?

Durante um tempo
achei que precisava
te esquecer.

Mas não se esquece
algo que te machucou tanto.

Porque esquecer
também pode ser
abrir espaço
para que a história se repita.

Eu precisei
ressignificar tudo.

Olhar para o que vivemos
com olhos mais racionais.

Doeu
te enxergar como você realmente era.

Doeu
me ver naquela posição.

Mas era necessário.

Para que tudo o que vivi
não tivesse sido
em vão.



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