Almas autênticas
Acredito que poucas coisas são tão generosas quanto a coragem de retornar a si.
De silenciar o mundo para ouvir o que ainda grita por dentro.
Não é um caminho simples.
Há um sistema inteiro operando para nos afastar de nós mesmos,
e seguimos por dias, semanas, anos,
como quem anda por corredores escuros sem notar que não se enxerga mais.
De repente, um lampejo.
E percebemos o abismo: estamos tão longe
que já não sabemos o rosto do nosso próprio íntimo.
O que desperta sua vida?
O que ainda merece seu pulso?
O cotidiano nos polindo, nos nivelando,
até que a autenticidade se torne excentricidade.
Os que resistem à forma são vistos como estranhos
e talvez sejam só mais inteiros.
Eu gosto de gente, mas às vezes preciso me recolher.
Um refúgio onde minhas miudezas possam respirar.
Um lugar em que eu me reencontro antes de me perder de vez.
E é curioso:
mesmo na solidão, estamos distantes.
Conservar a identidade é um gesto simbólico, quase sagrado.
Porque, no fim, o que realmente nos ancora
senão aqueles desejos que nos atravessam desde o silêncio?
Admiro quem caminha desalinhado das expectativas,
mas alinhado ao próprio centro.
Pessoas que, mesmo sacudidas pela ventania,
mantêm raízes profundas onde ninguém vê.
Mas até a árvore mais centenária conhece o chão.
Há solos que apertam, há espaços que sufocam,
e nenhum tronco resiste para sempre.
Cair não é o fim:
sempre há uma semente à espera.
Mas germinar exige cuidado
e um pouco de luz que só nasce de dentro.
Talvez a grande sabedoria das almas autênticas
seja compreender que o sentido da vida muda,
e ainda assim permanecer verdadeiro.

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