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Coadjuvante sanguínea

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Nunca vou me sentir mais sozinha do que quando eu só tiver você. Sua presença é recheada de ausências. Conversas de respostas curtas, silêncios que ecoam. Você é laço ancestral, sangue compartilhado. Mas, para você, eu sou lembrança eventual, convivência casual, importância repleta de insignificâncias. Para mim, você sempre foi parte de tudo. Sou a sombra que tenta te alcançar  próxima, mas sem se tocar. E eu sigo tentando me candidatar a papéis que nunca me foram escalados por você. O tempo troca os cenários, muda os atos, apaga as luzes. E eu permaneço, sempre atrás das cortinas, nos bastidores da sua vida.

Daughter

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A ânsia de ouvir tudo aquilo que eu queria que você me dissesse. Dizer que estou no caminho certo. Que sou exatamente como deveria ser. O quanto você me admira. Não pelo que você espera, mas pelo que eu ainda construo. Enquanto isso, eu espero. Olho o relógio de minuto em minuto. Respiro curto. E os dias passam num estalo. No lugar disso, escuto que minhas roupas não são adequadas. Que antes eu era mais delicada. Que os meus gostos não seriam benquisto. E vou sentindo que meus desejos são efêmeros. Então eu paro. Quem eu sou, afinal? Mas piores que as palavras são as ausências. Um elogio seu me levava aos céus. A ausência deles me empurrava para o inferno. E eu passei a viver tentando não cair. A falta de qualquer frase sobre a minha aparência. O silêncio que confirma que estou fora do ideal. Ou que bastaria ajustar isso e aquilo. Ser medida ou descartada. Amor condicionado.  Como se eu tivesse errada por existir do meu jeito. Como se precisasse de conserto. E eu me prendo nessa ré...

Minha Cartografia.

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Quem eu sou, só eu sei. E quem fui, sou eu quem mais conheceu.  Por onde meus pés passaram  e por quais motivos meus pensamentos voaram,  ninguém pode mapear.  Mesmo que tentem decifrar,  o código que inventei, ou o meu eu que se perdeu, não suporto que me narrem numa história que não é minha. Nem que me aprisionem em discursos que não são a minha sina.  Sei quem sou como jamais soube, e menos do que saberei, mas sempre mais do que qualquer outro que arrisque traduzir as linhas do meu anseio, as curvas do meu desejo, os nós dos meus medos.

Mas e quando fecham-se as cortinas?

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Mesmo que você me perguntasse,  eu não saberia responder. Tudo se emaranhou em um ninho, entrelaçando fios,  pedaços, retalhos costurados em silêncio. Minha perspectiva se prendeu em demasiada frustração, guiando-me por um conjunto tosco de ressentimentos e uma sensação constante de desalento. As palavras  são frágeis,  não descrevem a lassidão da minha mente. A proporção me escapa,  tornou-se maior do que eu, como se eu não tivesse mais lentes capazes de me fazer enxergar além deste breu. Enquanto isso,  minha ansiedade trabalha em tempo integral enquanto tento me agarrar no presente. Continuo vestindo este figurino, uma atriz descrente, esperando o ato encerrar, sem acreditar que o espetáculo tenha outro final.

Papos ruins

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Às vezes eu sinto que sou um fracasso. Acho que é um sentimento comum entre a maioria dos jovens adultos, mesmo que não admitamos isso com frequência. A gente mais sobrevive, intercalando breves momentos de vivência. Algumas amizades deixam de fazer sentido, as contas chegam impreterivelmente todo mês, ficar doente é um gasto fora do orçamento e, às vezes, tudo o que a gente mais deseja é a nossa cama e o silêncio dentro da própria mente. Às vezes sinto que consigo carregar um mundo nas costas e resolver o recado; outras vezes, só queria que alguém desse conta de tudo isso por mim. Li um livro recentemente no qual a personagem se define como “a Funcionária”. O grande papel da vida dela é esse. Depois de quase duas décadas nesse mesmo emprego, ela não se reconhece mais fora de lá; é como se não tivesse nenhuma outra missão na vida além de ser uma “Funcionária”. Fiquei pensando nisso. Na vida adulta, a nossa maior preocupação é pensar se vamos conseguir pagar o aluguel, de arcar com os g...

You did it

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Você falou que não tinha a intenção de me machucar, mas machucou. Como se palavras não fossem nada... Me deixou com os olhos cheios, largados em cima da cama, me perdendo do que eu era, do que era o meu corpo,  ou o que era os  lençóis que um dia já tivera o seu cheiro... "Eu poderia morrer e para você não teria diferença" De fato uma parte minha morreu desde esse dia, E nunca mais eu encontrei ela de volta. As vezes eu me esqueço das partes ruins,  mas nunca das  boas, então eu lembro das ruins novamente. Pensei que estivesse passado pouco tempo no paraíso,  mas, na verdade, me  demorei tempo demais no inferno. Talvez eu precisasse mesmo sangrar para saber hoje o que realmente é estar viva.

Pensamentos

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  As vezes eu penso demais,  e, ao pensar nisso, penso mais ainda Lembro de momentos e situações que me corroem e crio cenários que me aterrorizam. Minha mente compulsiva tem vida própria: é indomável, confusa e persuasiva.  As vezes me sinto em um carrossel, girando a duzentos quilômetros por hora,  escutando o som ensurdecedor de vozes, e não as compreendendo. Outras vezes sinto que estou andando em círculos, dentro de uma caixa vazia, na qual todos os fósforos já foram riscados, restando apenas o cheiro da fumaça que me sufoca e me anestesia. Eu sinto muito, desproporcionalmente, criando estoques colecionados na minha mente. E há vezes em que sinto tão pouco, que até esqueço que sou e estou presente. Todo dia o mesmo feito em  rotinas diferentes.  Todo dia o mesmo efeito decorrente. Até que esses pensamentos tirem, pouco a pouco, cada gota do meu ser, aniquilando, em meu âmago, o desejo de pertencer.