Daughter
A ânsia de ouvir
tudo aquilo que eu queria
que você me dissesse.
Dizer que estou no caminho certo.
Que sou exatamente
como deveria ser.
O quanto você me admira.
Não pelo que você espera,
mas pelo que eu ainda construo.
Enquanto isso, eu espero.
Olho o relógio
de minuto em minuto.
Respiro curto.
E os dias passam
num estalo.
No lugar disso, escuto
que minhas roupas não são adequadas.
Que antes eu era mais delicada.
Que os meus gostos
não seriam benquisto.
E vou sentindo
que meus desejos são efêmeros.
Então eu paro.
Quem eu sou, afinal?
Meros reflexos das suas expectativas?
Mas piores que as palavras
são as ausências.
Um elogio seu
me levava aos céus.
A ausência deles
me empurrava para o inferno.
E eu passei a viver
tentando não cair.
A falta de qualquer frase
sobre a minha aparência.
O silêncio que confirma
que estou fora do ideal.
Ou que bastaria ajustar
isso
e aquilo.
Ser medida
ou descartada.
Amor condicionado.
Como se eu tivesse errada
por existir do meu jeito.
Como se precisasse de conserto.
E eu me prendo nessa régua.
Quero ser perfeita.
Quero ser correta.
Nunca decepcionar
ou provocar.
Mas provoco.
Mesmo sem intenção.
E sigo
na contramão
das suas expectativas.
Ou eu me podo,
ou me adubo.
Às vezes com menos ganhos
e mais custos.
Porque, apesar da fadiga,
de tentar alcançar
o que nunca vejo,
sei que, no fim das contas,
sou a filha
que nunca vai chegar lá.

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